sábado, 17 de abril de 2010

JOSÉ CLÁUDIO - DISCUTINDO A RELAÇÃO


                                                                                   
- “Se você disser que eu desfino amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor”.
Isso foi depois de “um dia em que ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar”... Olhou-a de um jeito muito mais frio do que sempre costumava olhar e disse:
- “Não sei por que insisto tanto em te querer”... “Como vai você”? “Eu preciso saber da sua vida”! Nem que seja “só pra contrariar”.
E ela, na rotineira ausência de cumplicidade conjugal, pensava:
-“ Todo dia ele faz diferente, não sei se ele volta da rua, não sei se ele traz um presente, não sei se ele fica na sua. Talvez ele chegue sentido , quem sabe me cobre de beijos? Ou nem me desmancha o vestido? Ou nem me adivinha os desejos”?
Que confusão! É que ele quer uma letra, num acorde de um violão, ela quer um batidão (tum,ti,tum,ti,tum), ele quer um documentário, um filme , algo especial, ela quer uma novela, uma imagem digital com detalhes que mostrem celulites nas mulheres e a cor real da raiz dos cabelos alourados por tinturas mil.
E se ela quer Caras, ele quer um livro. Ela falou pro didjei , ele falou pro maestro: se ela dança, eu ouço uma sinfonia. Ela descia na boquinha da garrafa. Ele, contrariado, descia uma garrafa na boquinha. Não era um 12 anos, mas apaziguava. E ela ralava na boquinha da garrafa e ele ralava com as palavras para encontrar algo que descrevesse tanta “vida besta, meu Deus”!
- “Valei-me Deus , é o fim do nosso amor, onde foi que eu errei? Será que minha ilusão foi dar meu coração com toda força pra essa moça”? Pensava ele.
Se é “cada um no seu quadrado”, uma hora dessas ele vai acabar optando por um triângulo . Mas como antes que ela dissesse mais alguma coisa, ele “se instalou feito um posseiro dentro do seu coração”, - liga não! Disse ele. “É que no peito de um desafinado também bate um coração”. E o assunto ficou para a próxima vez que precisassem discutir a relação.
                                                              José Cláudio
                                         Belo Horizonte/MG
Nota do autor: As palavras, expressões e frases entre aspas são referências a letras de músicas e trechos literários.

2 comentários:

Milla Pereira disse...

Um lindo texto de José Claudio - a qauem muito admiro - que vc nos deu de presente, minha xará. Voltei para atualizar meu Blog e visitar os amigos.Ótimo domingo. Beijos da amiga Milla

Maria Emilia Xavier disse...

Este é um dos textos que gosto um pouquinho só mais do que todos. O que em se tratando da sua Obra, é uma dificuldade dizer que gosto mais desse ou daquele, pois todos são maiúsculamente ÓTIMOS.